O Distrito Federal pode produzir uma bancada feminina inédita no Senado e manter uma mulher no governo. Mas o fenômeno obriga a fazer a pergunta que o debate identitário costuma evitar: eleger mulheres significa, necessariamente, eleger uma política feita em defesa das mulheres?
O Distrito Federal pode estar diante de uma pequena revolução eleitoral. Michelle Bolsonaro tem 25% das intenções de voto para o Senado; Leila do Vôlei, 17%; Bia Kicis e Erika Kokay, 15% cada. O primeiro homem, Sebastião Coelho, aparece apenas depois, com 8%. Como Damares Alves já ocupa a terceira cadeira brasiliense no Senado, existe inclusive a possibilidade de o DF chegar a 2027 representado na Casa exclusivamente por mulheres. No governo, Celina Leão lidera com 34%, contra 22% de José Roberto Arruda e 18% de Leandro Grass.
É tentador olhar os números e proclamar a vitória da representação feminina.
Tentador — e insuficiente.
Porque a primeira pergunta deveria ser outra: que mulheres são essas e a quem politicamente representam?
Michelle Bolsonaro é o caso mais evidente de capital político inicialmente derivado de um homem. Esta é sua primeira eleição, seu sobrenome é eleitoralmente poderosíssimo e ela própria definiu a candidatura como a “missão” que Jair Bolsonaro lhe confiou, afirmando que pretende representá-lo no Senado. Seria intelectualmente desonesto ignorar isso.
Mas seria igualmente desonesto tratá-la como simples ventríloqua do marido. Michelle rompeu com a cúpula do próprio campo político quando entendeu que não tinha autonomia no PL Mulher, entrou em conflito público com Flávio Bolsonaro e defendeu candidaturas femininas contra decisões tomadas pelos homens da família e do partido. Há dependência de um patrimônio político masculino? Evidentemente. Há sinais de construção de uma liderança própria? Também.
Bia Kicis está em outra categoria. É bolsonarista até a medula política, mas não é politicamente uma criação familiar de Bolsonaro. Está no segundo mandato de deputada federal, já presidiu a CCJ da Câmara e construiu eleitorado próprio dentro da direita conservadora. Sua candidatura serve ao projeto bolsonarista, certamente; reduzi-la, porém, a representante de um homem seria ignorar a carreira que construiu.
Leila do Vôlei talvez apresente o caso mais claro de autonomia entre as quatro. Chegou à política carregando um patrimônio público que não veio de marido, pai, padrinho eleitoral ou sobrenome tradicional: veio das quadras. Foi eleita senadora em 2018 com 467.787 votos, tornando-se a primeira mulher eleita pelo DF para o Senado. Antes mesmo de assumir, defendia maior rigor da Lei Maria da Penha. Sua candidatura à reeleição depende sobretudo da avaliação de seu próprio mandato.
Erika Kokay também não surgiu à sombra de um homem. Sua trajetória precede em décadas a atual disputa: movimento estudantil, sindicalismo, presidência do Sindicato dos Bancários, CUT-DF, PT-DF, dois mandatos distritais e quatro mandatos consecutivos de deputada federal. É uma candidatura profundamente partidária, identificada com Lula e com a esquerda? Sim. Mas filiação ideológica não é sinônimo de tutela masculina.
E Celina Leão?
Aqui temos talvez o caso politicamente mais interessante. Celina foi deputada distrital duas vezes, presidiu a Câmara Legislativa, tornou-se deputada federal e só depois foi vice de Ibaneis Rocha. Assumiu definitivamente o governo em março, após a renúncia de Ibaneis para disputar a eleição. Portanto, recebeu a máquina do antecessor, mas não recebeu dele uma carreira política: já possuía uma. Agora tenta simultaneamente herdar os benefícios da administração e se afastar das responsabilidades associadas à crise BRB-Master, enquanto aproxima sua candidatura do eleitorado bolsonarista. É autonomia em construção — e também sobrevivência política.
Das cinco, portanto, nenhuma cabe confortavelmente na caricatura. Michelle possui a maior dependência de capital político masculino; Bia representa um projeto liderado historicamente por Bolsonaro, mas possui mandato e base próprios; Celina mistura herança administrativa e carreira autônoma; Leila e Erika possuem as trajetórias mais claramente independentes de padrinhos masculinos.
Mas há uma segunda armadilha ainda mais importante.
Achar que mulher necessariamente vota “como mulher”.
Não vota.
Em julho de 2025, a Câmara aprovou por 334 votos a 65 o PL 1.112/2023, que estabeleceu o cumprimento de 80% da pena antes da progressão de regime para condenados por crimes hediondos. A lista alcançada pela proposta inclui feminicídio, estupro e estupro de vulnerável. Bia Kicis votou sim. Erika Kokay votou não.
Significa que Erika “votou contra as mulheres”? A formulação é politicamente sedutora e juridicamente simplista.
A esquerda argumentou naquela votação que o endurecimento generalizado das regras de progressão representa punitivismo, não reduz necessariamente a violência e enfraquece a função ressocializadora da pena. Tarcísio Motta, do PSOL, sustentou exatamente isso; Bohn Gass e Lindbergh Farias, do PT, seguiram a mesma linha.
Pode-se discordar — e há bons motivos para discordar.
Se o Estado considera feminicídio e estupro crimes hediondos, é perfeitamente legítimo perguntar por que um condenado por essas condutas deveria recuperar rapidamente benefícios executórios. E existe uma contradição política que precisa ser enfrentada: partidos que constroem grande parte de seu discurso em torno da proteção da mulher frequentemente rejeitam soluções penais mais severas quando estas colidem com sua doutrina sobre encarceramento.
Mas eis justamente a conclusão que Brasília está oferecendo ao país: sexo não substitui ideologia.
Bia e Erika são mulheres. Uma votou pelo endurecimento; a outra, contra. Michelle e Erika são mulheres e representam projetos nacionais adversários. Leila não precisa escolher entre elas para possuir identidade própria. Celina governa sendo disputada por forças que ontem ajudaram a construir a administração da qual hoje tenta se diferenciar.
A democracia ganha quando mais mulheres chegam ao poder. Mas ganha ainda mais quando abandonamos a infantilização segundo a qual mulheres formariam uma categoria política homogênea obrigada a pensar da mesma maneira.
Representação descritiva importa. Não basta.
A pergunta madura não é apenas quantas mulheres serão eleitas. É o que cada uma fará com o poder recebido.
Talvez Brasília esteja prestes a eleger mulheres para praticamente todos os seus postos mais importantes. Ótimo. Depois da eleição virá a parte que realmente interessa: descobrir se foram escolhidas cinco mulheres para exercer poder — ou cinco projetos políticos que, por acaso, têm mulheres na fotografia.







