A eleição de 2026 deixou de ser previsível

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Há uma notícia que atravessa as três pesquisas divulgadas nos últimos dias e que deveria incomodar tanto quem torce por Lula quanto quem torce contra ele: a eleição presidencial de 2026 não está decidida.

E talvez seja justamente essa a informação mais importante escondida atrás dos percentuais.

A Palver encontrou Lula com 44% e Flávio Bolsonaro com 40% no primeiro turno. No segundo, os dois aparecem rigorosamente empatados: 46% a 46%. A BTG/Nexus, por sua vez, aponta Lula com 41% contra 37% de Flávio no primeiro turno e 47% contra 44% no segundo — diferença que permanece dentro da margem de erro. Já a Quaest apresenta cenário menos apertado: 39% a 30% no primeiro turno e 44% a 39% no segundo.

Quem olha apenas uma pesquisa escolhe a narrativa que deseja. Quem olha as três precisa reconhecer o fenômeno.

Lula lidera. Flávio cresceu. E a distância entre os dois diminuiu.

Isso não significa que Flávio esteja eleito. Seria tão absurdo quanto afirmar que Lula está derrotado. Pesquisa eleitoral não é urna antecipada; é fotografia. E fotografias diferentes podem produzir retratos diferentes da mesma eleição. A própria matéria da Veja mostra que a vantagem de Lula no segundo turno varia de apenas um ponto, no BTG/Nexus, a 5,5 pontos, no Meio/Ideia.

Há ainda uma ressalva metodológica que não pode ser escondida debaixo do tapete. A Palver ouviu 5 mil pessoas pela internet e reconhece que o método pode favorecer a participação de eleitores politicamente mais engajados. O próprio instituto explica que isso ajuda a compreender o desempenho de Renan Santos, que aparece com 10% no primeiro turno, muito acima do registrado em levantamentos presenciais.

Mas retirar a Palver da fotografia também seria um erro. Afinal, BTG/Nexus e Quaest, por metodologias distintas, registraram igualmente redução da vantagem de Lula sobre Flávio. No BTG/Nexus, a distância no primeiro turno caiu de nove para quatro pontos; na Quaest, de doze para nove.

E aqui começa a verdadeira história.

Desde a redemocratização, o presidencialismo brasileiro transformou o segundo turno em um mecanismo de concentração da disputa. A Constituição de 1988 estabeleceu que o presidente precisa alcançar maioria absoluta dos votos válidos; caso contrário, os dois mais votados disputam uma nova rodada.

Isso tem uma consequência política óbvia: não basta ser o candidato mais forte no primeiro turno. É preciso ser aceitável para uma maioria no segundo.

É nesse ponto que os números de 2026 se tornam especialmente relevantes.

Lula continua possuindo uma vantagem importante em determinadas regiões, especialmente no Nordeste. Na pesquisa Quaest, chegou a 64% contra 25% de Flávio no segundo turno na região. Mas Flávio avançou fortemente no Sul, onde aparece com 56% contra 29% de Lula. No Sudeste, a disputa também se estreitou: 40% para Flávio contra 38% para Lula.

O Brasil continua eleitoralmente dividido. E uma eleição dividida não costuma ser vencida apenas pelo eleitorado fiel.

Há, ainda, a economia.

O governo tem argumentos objetivos para defender seu desempenho: o mercado de trabalho permanece forte, e a taxa de desemprego chegou a 5,4% no trimestre encerrado em junho, menor nível para o período desde o início da série histórica. O PIB também acumulava crescimento de 2% em quatro trimestres, segundo o IBGE.

Mas existe uma regra econômica elementar que governos frequentemente esquecem: estatística macroeconômica não substitui percepção individual.

O cidadão não compra PIB. Compra comida. Não paga a dívida pública. Paga juros. Não comemora superávit primário. Paga a conta do supermercado.

É por isso que uma eleição pode produzir resultados aparentemente contraditórios: indicadores econômicos razoáveis coexistindo com insatisfação política.

A história brasileira está cheia desses episódios. Crescimento econômico não garante popularidade; recessão tampouco determina automaticamente derrota. Eleições são decisões políticas tomadas por indivíduos que interpretam a economia a partir da própria experiência.

E aqui está o problema para Lula: liderar não é o mesmo que convencer.

Para Flávio, o problema é simétrico: crescer não significa possuir uma maioria nacional.

Os números atuais sugerem que o senador conseguiu ocupar o espaço de principal adversário do presidente. Os demais nomes aparecem muito atrás nas simulações de primeiro turno, e Flávio é o único que sistematicamente transforma a liderança de Lula em disputa apertada no segundo turno.

Isso muda a natureza da eleição.

Até aqui, poderia haver uma narrativa de continuidade: Lula lidera, os adversários disputam a segunda posição e o segundo turno seria apenas uma formalidade. As pesquisas mais recentes dificultam essa leitura.

Agora existe uma pergunta verdadeira:

e se a eleição for decidida pelos eleitores que não gostam suficientemente de nenhum dos dois?

Esse eleitor será cortejado. E será ele, provavelmente, quem decidirá a Presidência.

Por isso, quem já declarou o vencedor está cometendo o erro clássico de confundir tendência com destino.

Lula ainda está na frente. Flávio ainda precisa ampliar sua capacidade de conquistar além do eleitorado bolsonarista. Mas a eleição deixou de ser uma procissão.

É disputa.

E, em uma eleição presidencial, quando o segundo turno começa a parecer empate, o que parecia certeza passa a ser apenas possibilidade.

O vencedor de 2026 ainda não foi escolhido. Nem pelos institutos. Nem pelos comentaristas. Nem pelas redes sociais. Pelo eleitor, muito menos.

Bruno Caires

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