Há políticos que descobriram uma fórmula extraordinariamente conveniente para a vida pública: quando fiscalizam os outros, chamam isso de responsabilidade; quando são fiscalizados, chamam de perseguição. É uma fórmula antiga. E continua funcionando porque parte do eleitorado parece aceitar uma coisa curiosa: a moralidade seria absoluta quando aplicada ao adversário e relativa quando chega ao gabinete do próprio grupo.
O caso Erika Hilton merece exatamente o contrário: menos torcida, mais documentos. Comecemos pelo que existe de concreto.
O Conselho de Ética da Câmara aprovou, por 10 votos a 5, a admissibilidade de uma representação que pede a cassação da deputada. O processo, entretanto, ainda não julgou o mérito. A representação foi apresentada pelo Partido Missão em razão de uma publicação feita por Erika Hilton no X, em março, na qual utilizou um trocadilho com “cisgênero” e “imbecis”. A defesa sustenta que não houve quebra de decoro.
Isso é suficiente para uma investigação? Sim.
É suficiente para afirmar que houve crime? Não.
E essa diferença, tão elementar para qualquer estudante de Direito, deveria ser repetida em letras garrafais no Congresso Nacional.
Mas há outra história — e essa é juridicamente mais interessante.
Em 2025, parlamentares acionaram o Ministério Público Federal e o Conselho de Ética questionando a contratação, pelo gabinete de Erika, de dois secretários parlamentares que também atuam profissionalmente como maquiadores. Segundo o UOL, um deles recebia R$ 9.678,22 e o outro R$ 2.126,59. A deputada afirmou que ambos exercem atividades parlamentares, participam de comissões, elaboram relatórios, preparam briefings e acompanham sua agenda.
Aqui termina a política e começa o Direito.
O Ato da Mesa nº 72/1997 é bastante claro: o cargo de secretário parlamentar existe para prestação de serviços de secretaria, assistência e assessoramento direto e exclusivo às atividades parlamentares do gabinete. A própria Câmara informa que é vedada contratação de caráter particular para prestação de serviços nas dependências da Casa.
Logo, a pergunta correta não é se Erika pode ter maquiador.
É óbvio que pode.
A pergunta é outra:
o contribuinte está pagando um assessor parlamentar que eventualmente se maquila a deputada, ou está pagando um maquiador que também possui atribuições parlamentares?
Parece uma distinção semântica. Não é.
É a diferença entre gasto público legítimo e eventual desvio de finalidade.
A oposição afirma que os profissionais seriam utilizados principalmente para serviços pessoais e pediu investigação por possível improbidade. Erika nega e classifica a acusação como invenção. Portanto, que se investigue.
Se os assessores efetivamente trabalham em comissões, relatórios, briefings e articulação institucional, que apresentem os elementos que comprovem isso. Se a função parlamentar for apenas uma etiqueta administrativa colocada sobre uma atividade predominantemente pessoal, o problema será outro. E aqui aparece a Constituição. O art. 37 não oferece ao agente público uma carta branca: a Administração deve obedecer à legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.
É uma regra bastante inconveniente para quem gosta de discursos absolutos. Porque moralidade administrativa não tem ideologia. Dinheiro público não é de esquerda, de direita, progressista ou conservador. É dinheiro do cidadão.
E chegamos ao patrimônio.
Erika Hilton declarou ao TSE R$ 15.975,73 em bens para 2026, contra R$ 19.989,96 em 2022. O valor está concentrado essencialmente em conta bancária e aplicações financeiras. Seu subsídio bruto como deputada é de R$ 46.366,19 mensais.
É estranho? Pode parecer.
É crime? Não.
Patrimônio baixo não é prova de corrupção, assim como patrimônio elevado não é prova de honestidade. Transformar a declaração patrimonial em prova de ilícito seria tão intelectualmente desonesto quanto ignorá-la porque a parlamentar pertence ao campo político conveniente. O problema verdadeiro está em outro lugar. Se alguém constrói sua carreira política defendendo transparência, combate a privilégios e proteção do dinheiro público, deve aceitar que seus próprios atos sejam submetidos ao mesmo escrutínio que aplica aos demais.
Isso não é perseguição. É a consequência elementar da vida republicana. E há uma ironia inevitável: aqueles que costumam exigir máxima transparência do Estado parecem descobrir, quando a lupa muda de direção, que transparência talvez seja uma virtude melhor apreciada à distância.
Há uma ressalva igualmente importante: o combate à hipocrisia não autoriza a fabricação de crimes. Representação não é condenação. Investigação não é culpa. Suspeita não é prova. Quem acusa tem de provar. Quem é acusado tem direito de se defender. E quem ocupa cargo público tem obrigação de prestar contas.
Essa é a diferença entre jornalismo político e panfleto partidário. Por isso, o caso Erika Hilton não precisa de exagero. Os fatos já são suficientemente incômodos para justificar perguntas. A parlamentar tem o direito de negar as acusações. A sociedade tem o direito — e o dever — de exigir respostas.
No fim, a régua deve ser uma só.
Para Erika Hilton. Para Bolsonaro. Para Lula. Para qualquer deputado.
Porque a República não pode ter duas morais.
Uma para fiscalizar os outros e outra para explicar a própria casa.
